Saúde

Antipsicóticos mostram diferenças clínicas relevantes, e clozapina lidera em eficácia, aponta megarevisão internacional
A análise incluiu 24 antipsicóticos e avaliou 33 desfechos clínicos, de sintomas gerais e cognitivos a eventos adversos cardiovasculares, metabólicos e sexuais.
Por Laercio Damasceno - 28/02/2026


Imagem da internet


Uma das mais abrangentes análises já realizadas sobre medicamentos antipsicóticos concluiu que, embora todos superem o placebo no tratamento da esquizofrenia aguda, há diferenças clinicamente relevantes de eficácia e tolerabilidade entre eles — com a clozapina ocupando o topo do ranking.

O estudo, publicado neste sábado (28), da The Lancet, reuniu 438 ensaios clínicos randomizados, totalizando 80.567 participantes, dos quais 78.193 forneceram dados utilizáveis para ao menos um desfecho. A análise incluiu 24 antipsicóticos e avaliou 33 desfechos clínicos, de sintomas gerais e cognitivos a eventos adversos cardiovasculares, metabólicos e sexuais.

“Encontramos diferenças pequenas a moderadas, mas clinicamente relevantes, entre os antipsicóticos em termos de eficácia”, afirmou o psiquiatra Stefan Leucht, da Universidade Técnica de Munique, autor sênior do trabalho. “Essas diferenças precisam ser mais enfatizadas nas diretrizes clínicas.”

As linhas conectam tratamentos com comparações diretas em ensaios com dados utilizáveis para o desfecho primário; a espessura das linhas corresponde ao número de ensaios que avaliam a comparação; o tamanho dos nós corresponde ao número de participantes alocados ao tratamento.

Clozapina no topo

Na análise do desfecho primário — redução global dos sintomas da esquizofrenia — 256 estudos duplo-cegos, envolvendo 58.948 pacientes, mostraram que todos os 24 medicamentos foram superiores ao placebo.

A magnitude do efeito, medida pela diferença média padronizada (SMD), variou de –0,90 (IC 95%: –1,03 a –0,77) para a clozapina a –0,23 (–0,39 a –0,06) para a lumateperona.

Além da clozapina, os fármacos amisulprida, olanzapina e risperidona demonstraram eficácia superior à de pelo menos três outros antipsicóticos, com intervalos de confiança excluindo diferenças consideradas clinicamente muito pequenas.

“A clozapina foi mais eficaz inclusive do que olanzapina e risperidona”, observam os autores, reforçando evidências anteriores de que o medicamento, tradicionalmente reservado a casos resistentes, pode ter papel mais precoce no tratamento.

Novo mecanismo, novas promessas

O estudo também analisou o recém-licenciado xanomelina–trospium, aprovado em 2024 como o primeiro antipsicótico com mecanismo primariamente muscarínico — e não dopaminérgico.

Diferentemente dos antipsicóticos clássicos, que bloqueiam receptores D2 de dopamina, a xanomelina atua como agonista dos receptores muscarínicos M1 e M4, modulando indiretamente a via dopaminérgica.

Na meta-análise, o fármaco ficou no terço superior em eficácia e não apresentou os efeitos adversos típicos dos bloqueadores dopaminérgicos, como ganho de peso, distúrbios motores extrapiramidais e elevação de prolactina. Em contrapartida, mostrou maior incidência de efeitos colinérgicos e anticolinérgicos, como náuseas, vômitos, taquicardia e constipação.

“Os agentes muscarínicos parecem compostos promissores”, escrevem os autores. Mas ressaltam: “Até o momento, só há estudos controlados por placebo; comparações diretas com outros antipsicóticos são necessárias para confirmar sua posição relativa.”

Qualidade metodológica sob escrutínio

A equipe examinou 18.859 referências e entrou em contato com autores de 5.428 estudos para confirmar métodos de randomização — um esforço incomum em revisões dessa magnitude.

A triagem foi particularmente rigorosa com ensaios indexados em bases chinesas. Embora a China produza cerca de 25% dos estudos sobre esquizofrenia, apenas 24 ensaios chineses foram incluídos após confirmação de metodologia adequada. Dos 5.117 estudos identificados em bases chinesas, a maioria foi excluída por falta de resposta, descrição inadequada de randomização ou problemas metodológicos.

“Dados mal randomizados podem distorcer metanálises e levar a conclusões enganosas”, alertam os autores. “Nossos resultados indicam que é preciso cautela ao incluir indiscriminadamente estudos sem confirmação metodológica.”


Tolerabilidade pesa na decisão

Se a eficácia variou, os perfis de efeitos adversos diferiram ainda mais.

Agonistas parciais da dopamina, como o aripiprazol, apresentaram melhor tolerabilidade geral, embora com eficácia intermediária. Já a lumateperona mostrou menos efeitos colaterais, mas ficou entre os últimos em eficácia.

A combinação olanzapina–samidorfano, criada para mitigar ganho de peso, teve efeito limitado sobre esse desfecho no período médio de seis semanas analisado — possivelmente curto demais para capturar diferenças metabólicas significativas.

“Além da eficácia, os diversos perfis de efeitos adversos precisam ser considerados na escolha individualizada do tratamento”, destaca Johannes Schneider-Thoma, primeiro autor do estudo.

Implicações clínicas

Os autores defendem que os achados devem influenciar futuras diretrizes terapêuticas, com maior ênfase nas diferenças de eficácia e em estudos modernos que testem a clozapina como opção de primeira ou segunda linha — e não apenas como terceira linha, como ocorre atualmente em muitos países.

Também pedem ensaios comparativos diretos entre xanomelina–trospium e antipsicóticos tradicionais para determinar se o novo mecanismo representa, de fato, um avanço terapêutico sustentado.

Financiado pela Fundação Alemã de Pesquisa, pelo Ministério Alemão de Pesquisa, Tecnologia e Espaço e pela Fundação Nacional de Ciências Naturais da China, o estudo reforça um princípio central da psiquiatria contemporânea: não existe um antipsicótico ideal para todos — mas há diferenças que importam.


Referência
Eficácia e tolerabilidade comparativas de antipsicóticos antidopaminérgicos e muscarínicos para esquizofrenia aguda: uma metanálise em rede de ensaios clínicos randomizados indexados em bases de dados internacionais em inglês e chinês. The Lancet. Publicado em: 28 de fevereiro de 2026. Johannes Schneider-Thoma, Yikang Zhu, Mengchang, QinYu Dong, Shiwei Guan, Jia Xi Wange outros. DOI: 10.1016/S0140-6736(25)02365-7

 

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